Vôlei Quadra

Ex-jogadores contam como valores do vôlei ajudaram em transição precoce de carreira

Betina, Pedro Cunha e Luciane Escouto contam como foi deixar para trás a vida de atleta profissional ainda atuando em alto nível

28/08/2020 14:55 Por: Ace Esportes e Entretenimento
Luciane Escouto, Pedro Cunha e Betina decidiram largar o vôlei de maneira precoce, mas seguem brilhando fora das quadras. Fotos: Divulgação
Se tornar um atleta profissional, atingir o mais alto rendimento, conquistar títulos importantes, integrar as principais equipes, vestir a camisa da seleção brasileira e disputar uma Olimpíada. É um currículo para poucos, muito poucos. Conseguir chegar a esse nível no voleibol, e em qualquer modalidade, exige muita dedicação desde muito cedo. O bônus é incrível, mas caminha ao lado do ônus. E para alguns a decisão de deixar as quadras precocemente se torna o caminho mais atraente, mesmo com pouca idade e mercado. Fica então o caráter moldado pelo vôlei, a personalidade talhada de quem não desiste de um desafio, seja qual for a área escolhida para o pós-carreira.


Levantadora promissora no início dos anos 2000, Betina integrou as seleções brasileiras de base e chegou a integrar o time profissional da Unilever, na temporada 2008/09. Comandada por Bernardinho, ela foi campeã da Superliga aos 19 anos, mas, mesmo com o título e estando no elenco de um dos principais projetos do país, decidiu seguir outro caminho.

“Tinha acabado de ganhar a Superliga, em 2008/09, e talvez tivesse a oportunidade de continuar no time. Mas eu fui na coragem mesmo e larguei tudo. Em um mês estava nos Estados Unidos. Esse também sempre foi um sonho meu, morar fora e ter essa experiência de vida, poder fazer uma faculdade, ainda mais no exterior. Então, organizei tudo e fui, sem muito tempo para pensar”, disse Betina, explicando o que motivou sua atitude e quanto foi difícil largar as quadras.

“Foi uma decisão muito difícil, ainda mais antes dos vinte anos. Mas decidi porque achei que no vôlei eu não teria tanto sucesso quanto eu poderia ter em outra carreira se eu parasse logo. Senti que talvez não fosse uma das melhores, por dificuldades técnicas mesmo, de talento, talvez. Então valeria mais a pena parar de jogar, até porque atleta tem uma carreira curta, e ir atrás de algo novo. Me formei no exterior e foi muito complicado. Acabei tendo experiência em muitos empregos, um processo longo, até encontrar o que eu gostava mesmo de fazer. Foi um crescimento enorme e não me arrependo de nada”.


Talento formado nas areias do Rio de Janeiro, Pedro Cunha também optou por deixar a rotina de atleta profissional ainda em alta. No início de 2013, meses depois de defender o Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres, ainda como um dos principais jogadores do mundo, anunciou que buscaria uma outra atividade para se dedicar. Mesmo sem saber ainda qual atividade seria essa.

“Depois dos Jogos de Londres, que era uma das minhas metas, passei por um momento difícil, com muitas lesões, dores e bem cansado da rotina de viagens. Então decidi seguir novos caminhos, mesmo que ainda não soubesse qual. Essa, sem dúvida, foi minha maior dificuldade. Eu sabia que não queria mais competir profissionalmente, mas não sabia o que iria fazer. Eu sabia que queria algo diferente para a minha vida, mas sem muita definição”, revelou Pedro, que acabou ‘convocado’ para integrar uma equipe com outros campeões no Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

“Passei por um processo de transição de atletas olímpicos, no COB, e acabei sendo contatado por eles, pela Adriana Behar, que se tornou minha chefe. Trabalhei na equipe da Adriana, junto com Marcos Vinícius, Bernard, que eu já conhecia do vôlei, por dois anos. Eu era formado em marketing e tinha feito dois anos de engenharia de produção. Tive a chance depois de voltar a jogar por um período curto e vi que tinha tomado a decisão certa. Fui até bem, tive algumas vitórias legais, mas realmente não era mais aquilo que eu queria”.


Nem sempre o motivo de uma aposentadoria precoce é a vontade de ter um novo direcionamento profissional. A decisão pode ser motivada por uma mudança pessoal, como aconteceu com a meio de rede Luciane Escouto. Aos 27 anos, e após ter passado por grandes clubes como Unilever, no Rio de Janeiro, Vôlei Nestlé, de Osasco, Pinheiros e Barueri, ela teve mais que uma motivação para tomar a decisão que mudou sua vida.

“Já estava pensando em parar de jogar, pois sentia muita dor, principalmente no ombro. E era uma dor limitante, que a fisioterapia não resolvia mais. Isso me incomodava muito porque eu não conseguia dar 100%. Atacava com toda minha força, mas eu não conseguia. Era horrível e estava muito incomodada. Mas ainda não me sentia à vontade para parar porque eu joguei vôlei a vida inteira. É uma decisão difícil. No final da temporada, acabei engravidando, bem nessa transição entre as temporadas, e foi o empurrão que eu precisava”, contou Luciane, que seguiu ligada ao esporte, e ao vôlei, em seu novo caminho.

“Minha transição foi bem rápida. Acabou a Superliga, eu casei e em seguida engravidei. Então foi tudo na sequência. A maior dificuldade foi acreditar que seria possível ter um novo rumo. É claro que meu filho também me impulsionou, porque te ocupa mais de 100% do tempo. Então não tive muita opção, tinha mesmo que seguir em frente. Comecei a jogar com 11 anos, com 14 eu fui para São Paulo, e o vôlei era a minha vida. Eu não sabia fazer outra coisa. Tive muita força do meu marido, que também foi atleta. Porque é um impasse mesmo. Você se questiona se vale a pena mesmo parar, se vale continuar. Hoje sou formada em fisioterapia, atendo atletas, mas tenho um público geral. Ajudo nos tratamentos de prevenção, lesão e agora estou na metade da graduação em nutrição, minha segunda faculdade. A princípio eu quero seguir a área clínica. Provavelmente me formo no ano que vem”.


Mesmo com histórias e motivações distintas, os três carregam para suas vidas pós quadra os valores e ensinamentos do voleibol. E são unânimes em afirmar o quanto o alto rendimento os deixou preparados para enfrentar os desafios. Seja qual for a área de atuação escolhida.

“Minha carreira logo depois do vôlei foi com a moda, que é um universo parecido e ao mesmo tempo muito diferente. O mundo da moda é bem ligado a imagem, ao ego, a vaidade e é cada um por si. Então temos que nos destacar muito para conseguir alguma coisa, ao contrário do vôlei, que é totalmente coletivo. Aprendi muito com os valores que o vôlei me deu, desde os 12 anos. Eles me moldaram, não só como atleta, mas o meu caráter também. A minha família é toda ligada ao esporte e eu quero que meu filho e minha família estejam sempre ligados ao esporte. Se puder ser o vôlei, melhor ainda. Porque isso que o esporte te dá, a gente leva para toda vida. E a gente sabe que outras profissões não nos dão isso”, afirmou Betina, que se formou em administração e cuida de sua empresa de agenciamento.

“Me formei em administração nos Estados Unidos e hoje atuo na área. Mas já fui corretora de imóveis, modelo etc. E hoje eu administro minha empresa, que se chama BYou Management e é totalmente ligada ao esporte e ao vôlei. É uma empresa que agencia personalidades do esporte, entre elas Natalia, Fabizona, Thaisa, Fabizinha e Virna, no futebol tem o Roger e uma galera da televisão que também é ligada ao esporte. No início eu perdi um pouco da minha ligação com o vôlei, mas agora eu estou totalmente ligada, o que me deixa muito feliz”. 


Pedro Cunha lembrou outro aspecto encantador do esporte: a meritocracia. De acordo com o craque das areias, nenhuma outra área recompensa tanto o esforço. “Se desenvolver como atleta depende muito da gente mesmo. É um esforço muito mais recompensado do que em uma profissão comum. E durante esse período que já estou fora das quadras, sempre procurei estar ligado ao esporte. Fiz meu mestrado na Suíça, em gestão esportiva, e vi que o esporte é a área em que mais existe meritocracia. Você é recompensado pelo seu esforço muito mais do que em qualquer outro lugar”.

Um fator muito lembrado também por quem deixa as quadras é a obstinação de buscar sempre a excelência. Mas a rotina de treinos vem acompanhada de um descanso necessário para quem atua no alto rendimento. E isso também faz falta para os ex-atletas.


“O atleta está acostumado a sempre buscar a excelência. São muitos treinos, muita dedicação, mas agora acabo me cansando mais. Quando somos atletas, temos todo o horário definido, inclusive o de descanso. Com faculdade, trabalho, maternidade e casa, faço muita coisa ao mesmo tempo. E sem descanso nenhum durante o dia. É difícil, desgastante, mas sigo buscando a excelência, estudando o tempo todo e expandindo meu campo de visão”, falou Luciane Escouto, que foi miss Rio Grande do Sul e segue cheia de sonhos para o futuro.

“Conheci a nutrição na época que estava nos concursos de miss. Precisei emagrecer muito e precisei estudar também sobre isso. Sempre me cuidei bem, mas ali foi o auge. Entrei nesse caminho de alimentação saudável, inclusive criei meus sucos funcionais. Então eu acho que devo atuar mais como nutricionista do que como fisioterapeuta. Amo sonhar, amo a fisioterapia e estou buscando uma forma de ligar as duas áreas. Sei que uma complementa a outra e quero buscar esse caminho. Sonho em ser uma profissional diferenciada, que faz diferença na vida das pessoas. Quero ser uma aliada do paciente, esse é meu grande objetivo”.


Betina também espera conseguir concretizar seus sonhos ligadas ao esporte. Feliz pela atuação fora das quadras, a jovem empresária não sente falta da bola e se realiza nas conquistas de seus clientes.

“Não sinto saudade da quadra. Eu não jogo nem para brincar. O vôlei foi uma etapa da minha vida que foi bem encerrada. Gosto muito de estar por trás e criei a BYou para fazer uma gestão de imagem e carreira diferente. Algo único, que valorize o perfil de cada atleta, sem moldá-los. Quero fazer eles se destacarem pelo que são, porque são pessoas realmente extraordinárias e a gente precisa valorizar isso. Quanto mais eu conseguir agregar a minha experiência à deles, quanto mais eu puder passar tudo o que aprendi e estou aprendendo para a galera do esporte, melhor. Estou me especializando que é marketing de influência, gestão de carreiras e planejamento de ação, e sei que eles vivem em uma bolha, que realmente precisa ser vivida por quem está no alto rendimento, para que os objetivos sejam alcançados. Por isso, acredito muito em uma boa gestão de carreira, que analise o perfil de cada um. Esse é o meu objetivo. E conseguir fazer eles crescerem mais e mais é minha vitória”.


Saudade. Este será um sentimento que Pedro Cunha carregará consigo. Até para servir como inspiração nos caminhos que tem trilhado para seu futuro. Sempre com o vôlei guardado no coração.

“Eu ainda sinto saudade do alto rendimento, de jogar uma final com casa cheia, televisão e etc. Agora fiz uma transição radical de carreira e vim trabalhar com finanças, que era um sonho meu desde a época da faculdade. Acabei de me associar a um escritório de investimentos e tenho objetivos bem definidos, de médio a longo prazo. Estou começando nessa nova área e eu quero ter o mesmo ou mais sucesso do que tive nas quadras”, finalizou.

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