Vôlei Quadra

Força brasileira na corrida olímpica do vôlei de praia dos Estados Unidos

Treinadores de parcerias norte-americanas, Fiapo e Kioday contam como estão contribuindo para a evolução em país que também é referência na modalidade

12/06/2020 15:33 Por: Ace Esportes e Entretenimento
Fiapo com Alix e April e Kioday com Walsh e Sweat. Crédito: FIVB e arquivo pessoal
Maior referência mundial no vôlei de praia, o Brasil tem exportado talentos. Apesar de alguns jogadores nascidos por aqui já terem defendido outras bandeiras, são os treinadores que mais contribuem para o desenvolvimento da modalidade em terras estrangeiras. E não são apenas centros menos desenvolvidos que contam com o talento verde-amarelo. Nos Estados Unidos, um dos principais mercados, e também um dos berços do vôlei de praia, duas das principais parcerias femininas contam com brasileiros: Guilherme Tênius, o Fiapo, trabalha com Alix e April, vice-campeãs mundiais em 2019 e segunda melhor dupla no ranking mundial, e Luciano Kioday com Sweat e Walsh, atleta tricampeã olímpica e a mais vitoriosa em atividade.

Fiapo é fisioterapeuta e construiu uma carreira incrível no Brasil, integrando por 20 anos a comissão técnica de Bernardinho. Esteve em cinco olimpíadas, conquistou cinco medalhas (uma de bronze, duas de prata e duas de ouro), sendo a última em casa, no título com a seleção masculina nos Jogos do Rio de Janeiro. Depois de tantas glórias nas quadras, ele se mudou com a família para a Califórnia em 2017, em uma decisão planejada.


“Minha mudança foi planejada. Já conhecia a Califórnia e tenho muitos amigos aqui, principalmente o Anjinho e o Loiola (ícones do vôlei de praia dos anos 90). Passamos um final de ano aqui, em 2014, e ficamos apaixonados pelo estilo de vida, com as crianças brincando na rua, sem aquelas preocupações com segurança que temos no Brasil, a casa de porta aberta o dia todo. Uma coisa que realmente encantou a gente. Em 2017, depois de terminar meu vínculo com o Rexona-Sesc, vim direto para cá”, explicou Fiapo, que passou a ser treinador, e de vôlei de praia por necessidade.

“Eu passei a ser técnico por uma necessidade. Continuo fisioterapeuta. É o que sei e gosto de fazer. Mas o processo de validação do diploma aqui é super longo, quase que fazer uma nova faculdade. É preciso ter domínio da língua falada e escrita e isso ainda é complexo para mim, apesar de estar muito ambientado com todos os termos técnicos. Logo que cheguei, comecei a ajudar o Loiola, que é treinador, com algumas ideias do que vivenciei dentro da quadra. Fui tentando adaptar para a praia e as coisas foram acontecendo. Acrescentei essas coisas ao trabalho dele, ele foi me ensinando muito, me ‘deu’ uma dupla para treinar e as meninas adoraram”.
 

Ex-jogador de vôlei de praia, Luciano Kioday já tem uma carreira vitoriosa como treinador. Mas rodou muito antes de chegar aos Estados Unidos. Começou a carreira na Noruega, depois de integrar comissões técnicas nas areias do Brasil. Depois, rodou por Azerbaijão e Irã até assumir a parceria entre Carol Solberg e Maria Elisa. Foram três anos lutando pela vaga olímpica em Tóquio, mas apesar de chegarem perto, não conseguiram. Só que a decepção acabou se tornando reconhecimento e uma nova porta se abriu.

“Fiquei muito triste por não termos conquistado a vaga olímpica. Foi uma dor incrível, que me fez ter questionamentos e tentar filtrar mais as coisas. E acabei recebendo uma mensagem da Walsh, me convidando para ser técnico, que me fez chorar. Foi em dezembro, ainda estava no ‘meu luto’. Eu lia e chorava. Não pensei duas vezes. Era uma oportunidade única, com uma tricampeã olímpica. Não está sendo da forma como eu havia planejado, mas é a chance de conquistar esse sonho de estar em uma olimpíada. Encaro isso como um presente de Deus, mas também um grande desafio. Estou dedicando todo o meu esforço para o time, tentando agregar o meu valor ao time e à uma atleta que dispensa comentários. Temos chance de classificação, principalmente com esse adiamento e vamos ter mais tempo de preparação para encaixar melhor”, disse Kioday.


Com Fiapo, a história foi um pouco diferente. Como estava ajudando Loiola e treinava algumas outras parcerias, acabou encontrando com Alix Klineman por acaso. A atleta, que já havia atuado nas quadras no Brasil o conhecia, pediu uma ajuda e tudo acabou acontecendo.

“A gente já se conhecia e ela contou que estava querendo jogar na praia. Trabalhamos três meses sozinhos e ela curtiu pra caramba. Por sorte nossa, a April estava escolhendo uma nova parceira e convidou a Alix. Eu também já conhecia a April, já tinha dado alguns treinos para ela, com o Loiola. Quando a Alix falou no meu nome para ela, aceitou. Mas não sou o treinador principal da dupla. A head coach é a Kessy, que jogou com a April. Foram medalhistas de prata em Londres 2012. Eu integro a equipe, como um assistente e cuido mais da parte técnica, controle de bola, além de ajudar com a fisioterapia, com exercícios de prevenção de lesão”, falou Fiapo.

A tal parte técnica citada são os fundamentos, que incrivelmente são pouco trabalhados nos Estados Unidos. Essa é a maior diferença para os brasileiros que se aventuram por lá no vôlei de praia. “A maior diferença de estilo de jogo é a forma como se treina. No Brasil a gente divide muito as coisas, e lá é sempre a coisa por inteiro. Eu sabia que a escola americana é bem diferente da brasileira. Tenho um estilo de dividir o treino por fundamentos e os norte-americanos gostam de treinar como um todo, de jogar mais. Sabia que seria um desafio, mas as duas estavam muito dispostas a receber novas informações. Isso facilitou muito. Fizemos um planejamento juntos e elas encararam como uma oportunidade de melhorar”, revelou Kioday.


“Eu fui muito bem aceito. O trabalho é bem diferente do que fazemos no Brasil. Os treinos nos Estados Unidos são mais jogos, coletivos. Trabalham pouco a parte técnica, repetição, o que fazemos muito. Especialmente para mim, que vivi minha carreira toda na comissão técnica do Bernardinho, com o Tabach (Ricardo) e o Hélio (Griner). Ter feito parte dessa CT me ajudou 100% no trabalho que faço hoje. Tudo que uso aprendi com eles. Com Bernardo, Tabach, Helio, Chico dos Santos e Rubinho. Uso, por exemplo, técnicas de bloqueio do Chico, de passe que aprendi com o Tabach, coisas de repetição, cobrança e liderança que aprendi com o Bernardo... Se hoje sou chamado de treinador, apesar de me considerar um fisioterapeuta que está treinador, devo a eles minha formação”, agradeceu Fiapo.

Com histórias e funções diferentes, tanto Kioday quanto Fiapo têm um objetivo em comum: levar suas atletas para os Jogos Olímpicos de Tóquio. Alix e April estão bem próximas, visto a grande temporada que fizeram em 2019, e devem confirmar a vaga. Mas isso não garante 100% o fisioterapeuta e treinador brasileiro em mais uma disputa.

“Se eu disser que não existe uma expectativa da minha parte, estaria mentindo. A vaga olímpica está praticamente garantida e a briga aqui é pela segunda vaga. Seria muito legal estar lá com elas na briga por mais uma medalha, até porque sei que elas têm condição de brigar para isso. Mas eu não posso querer mais nada com relação à Olimpíada. O que posso querer mais? Fui a cinco, ganhamos cinco medalhas, duas de ouro, sendo a última no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, com minha mãe, esposa, família e amigos no ginásio. Elas já manifestaram a vontade de eu estar com elas em Tóquio, mas é uma decisão da USA Volleyball. Tem um pouco de política, de pensar: ‘vou levar um brasileiro’? Talvez tenham alguns norte-americanos na minha frente. Já enviei a documentação para o comitê norte-americano como um nome em potencial para estar em Tóquio. Não é uma garantia. Ao mesmo tempo, já tinha até comprado passagem para toda a família para estar nos Jogos. Seria a primeira oportunidade de assistir mesmo. Fui a cinco olimpíadas, mas era só trabalho. Só vôlei, vôlei e vôlei. Seja trabalhando ou não, estarei lá”, esclareceu Fiapo.


Se Alix e April estão praticamente garantidas nos próximos Jogos Olímpicos, o mesmo não acontece com Sweat e Walsh. Para chegar lá, a parceria conta, e muito, com o trabalho de Kioday, que realizaria seu sonho de ir aos Jogos pela primeira vez.

“No primeiro treino eu fui meio tenso por trabalhar com uma lenda do nosso esporte. Sempre que tive oportunidade de vê-la jogando, eu ia. É absurdo o comprometimento que ela tem dentro de quadra. E fiquei ainda mais impressionado no dia a dia. É muito fácil descobrir porque ela ganhou tanto. Ela tem um foco fora do normal e se compromete de uma forma diferente de qualquer outro atleta que já vi. Cada treino é encarado como se fosse uma final, com ela dando tudo que tem. Mesmo tendo uma vida muito agitada, com três filhos, ela consegue dar o melhor sempre. É uma grande inspiração e nos meses que trabalhamos, antes da pandemia, já conseguimos uma química muito legal. Foram três meses intensos e vimos uma evolução em todos. Elas têm muito a melhorar nos fundamentos, mas de cabeça a Walsh é um fenômeno. Acreditamos demais que podemos conseguir. Agora, com todos os ensinamentos que já tive, espero fazer melhor dessa vez e conquistar esse sonho junto com ela”, disse Kioday.  


Enquanto o sonho e a expectativa dos dois não se confirmam, Fiapo explicou o que leva para suas jogadoras da sua longa experiência olímpica. Dicas simples, que podem servir inclusive para o compatriota que também luta para estar em Tóquio pelos Estados Unidos.

“Sempre digo que a medalha você ganha no dia a dia, no treinamento. Mas é claro que estar numa Olimpíada é diferente. Naquelas semanas tudo tem que conspirar a favor. Tem que chegar bem preparado, é bem particular, bem diferente. Até o ar que você respira é diferente”, finalizou.

Fotos: Arquivo pessoal e FIVB

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